Allan Kardec

Transcorrendo nestes dias a data em que se comemora o desencarne do missionário codificador da Doutrina dos Espíritos, ao invés de palestras novas, preferimos transcrever aqui o que dissemos em abril de 1957 e fizemos publicar pelo Semeador desse mês, na FEESP – Federação Espírita do Estado de São Paulo.

“Quando, no conceito soberano e justo do Divino Arquiteto Planetário, foi julgado o lançamento da Terceira Revelação, para benefício da Terra amargurada, sem ideias, sem esperanças, saturada do pessimismo materialista, o Brasil – a futura Pátria do Evangelho – pela sua própria destinação seria o país naturalmente eleito para receber a semente fecunda da verdade maior. Porém, suas condições sociais, políticas e religiosas, como colônia que era, tributária, de outra nação, não ofereciam ambientação favorável ao novo surto espiritual que deveria se expandir rapidamente por toda parte, em cumprimento às promessas do Paracleto.

Tentativas heroicas já haviam, infelizmente, malogrado no afã de modificar esse estado de coisas, oferecendo ao povo a liberdade e a segurança indispensáveis a uma vida espiritual mais avançada.

Foi então que o coração magnânimo do Divino Pastor se voltou para a França, o belo país do Velho Continente, tantas vezes posto em evidência na história do mundo e em cujos ares ainda ecoavam os rumores das batalhas terríveis travadas por idealistas, nos altos e baixos da revolução cruenta que ensanguentou seu solo por tantos anos, mas que conseguiu espalhar pelo mundo os símbolos ­– ao menos os símbolos – da libertação igualitária que era o anseio de todas as almas.

Em consequência, reencarnou ali o missionário Allan Kardec, pseudônimo adotado em memória do mesmo Espírito que já se notabilizara antes, em lutas idênticas na Gália antiga, entre os druidas lendários.

Espírito amadurecido e consciente de sua transcendente e delicada tarefa, assim que terminou seu período de adaptação ao novo meio e soado o momento oportuno, pôs-se ao trabalho afanosamente, utilizando-se de médiuns competentes e, da mesma forma, antecipadamente preparados, iniciando a publicação das obras fundamentais da Codificação, que hoje representa monumento sólido posto a serviço da renovação do mundo.

Para esse ingente trabalho e para lhe secundar o esforço, mais ou menos à mesma época reencarnaram outros companheiros devotados e competentes como Flammarion, Léon Denis, Gabriel Delanne etc., cujas obras muito embora não façam parte da codificação são-lhe, no entanto, necessárias e complementares.

Por outro lado, esse soberbo trabalho no campo mental foi amparado fortemente pelos Espíritos desencarnados e pelo derrame da mediunidade – também prometido antes – que, por toda parte, eclodiu irresistivelmente, dando confirmação aos fatos expostos, comprovando-os e, em muitos casos, ampliando-os.

Esse derrame, que vem sendo sempre crescente até nossos dias, tornou-se agora fenômeno aceito por todos, sem contestação aceitável, malgrado as limitações e as hostilidades que os interessados na ocultação da verdade lhe movem entre as massas do povo, que até aqui foram sempre mantidas no obscurantismo.

Em nosso país, sobretudo, esse fenômeno teve aspecto especial, popularizando-se rapidamente, permitindo que o espiritismo se expandisse de forma vitoriosa, consagrando-se por toda parte como a verdadeira religião do futuro, o cristianismo renascente que, na verdade, operará nos dias próximos à redenção espiritual da humanidade.

Inclinemo-nos, pois, ante o Espírito venerável e sábio, que num lapso de tempo tão curto, mercê de seu devotamento, realizou tarefa de tal vulto cujas consequências serão benefício para esta humanidade, na sucessão dos evos, eternidade afora.

Nesta época de renovação doutrinária em todos os setores da vida humana que estamos vivendo, às vésperas dos dias emocionantes e decisivos do selecionamento cíclico do transcurso do atual milênio, a personalidade histórica de Kardec se faz presente em todas as atividades como elemento ponderável por cujo intermédio, inúmeros, conhecimentos novos foram revelados, concorrendo assim para que os seguidores do espiritismo possam se apresentar, nesse selecionamento, com um teor razoável de esperanças, pelo muito que sabem agora, face ao vulto assustador e deprimente da ignorância que dominava o mundo, anteriormente.

Se é verdade que o saber maior implica maiores deveres e responsabilidades, a própria Doutrina, no seu setor evangélico, oferece recursos de procedimento alimentadores dessas esperanças que, para muitos, se transformará em radiosa realidade espiritual.”

Edgard Armond – O Trevo – Abril/1978