O lugar certo sempre foi a casa

O LUGAR CERTO SEMPRE FOI A CASA

 

Há 25 anos vivi uma experiência que, sem que eu pudesse imaginar, faria todo sentido na minha vida muitos anos depois.

Quando fiz a Escola de Aprendizes do Evangelho, meu filho mais velho tinha apenas seis anos. As aulas aconteciam aos domingos, das 18h às 19h30.

Nos domingos, como acontece em muitas famílias, também era dia de aniversários, passeios, encontros e, de vez em quando, alguma viagem. Mas eu sempre dava um jeito. Organizava os horários, contornava os compromissos e fazia o possível para não faltar às aulas. E, na maioria das vezes, conseguia.

Enquanto eu estava na Escola, meu marido ficava com o pequeno, e quando ele tinha algum compromisso também com o Centro Espírita, meus pais ficavam com meu filho. Essa era a nossa organização e funcionava muito bem. Só que nem sempre as coisas saíam como planejado.

Havia domingos em que os compromissos se acumulavam e simplesmente não tinha com quem deixá-lo. Nessas horas, não havia muito o que pensar: ele ia comigo para a Casa Espírita.

E assim fomos levando. Entre a rotina de mãe, os compromissos da família e a vontade de continuar frequentando a Escola, fui encontrando um jeito de conciliar tudo.

Naquela época, talvez eu não percebesse, mas meu filho também estava, de alguma forma, fazendo parte daquela caminhada comigo.

Ele sempre foi muito interessado em todos os assuntos, questionador e extremamente inteligente. Uma criança diferente! Não fazia bagunça durante as aulas, ficava quietinho, prestando atenção em tudo o que acontecia e o que era falado, mas, vira e mexe, fazia alguma pergunta para os facilitadores que iam dar aula.

E olha que ele já tinha sido várias vezes, devidamente orientado a “fechar o bico” e não perguntar nada. Esse era o nosso combinado: ele poderia ficar comigo, desde que não atrapalhasse a aula.

Só que as perguntas vinham. E o pior, ou o melhor, é que eram sempre pertinentes ao assunto que estava sendo tratado.

Eu ficava tensa. O dirigente da turma me olhava com um sorriso amarelo, afinal, aquilo não deveria acontecer. Ele era uma criança no meio de uma aula para adultos, estava no ambiente errado, na hora errada e, por mais pertinentes que fossem suas perguntas, eu nunca sabia como o expositor ou as outras pessoas da turma iriam reagir.

Foi nessa época que comecei a pensar muito sobre uma questão: quantos pais e mães não passavam pela mesma situação?

Eu sempre achei que a Casa poderia ter um espaço para acolher essas crianças. Não precisava ser nada muito elaborado. Uma salinha com alguns brinquedos, passatempos, papel e canetinhas, talvez uma televisão com desenhos animados e, principalmente, alguma alma caridosa disposta a ficar com elas durante aquele período.

Seria um cantinho simples, mas que faria uma enorme diferença para os pais que queriam participar das aulas e não tinham com quem deixar seus filhos, poderiam se dedicar aos estudos sem preocupação.

Porque, às vezes, não é falta de vontade de estar ali. É apenas a dificuldade de conciliar dois momentos igualmente importantes da vida.

Terminei a Escola, fiz vários cursos e trabalhei na Casa em diversas frentes. E, junto dessa caminhada, a Evangelização Infantil sempre esteve presente na nossa vida durante todos esses anos. Depois do mais velho, tivemos mais dois filhos e, com eles, continuamos participando ativamente desse trabalho.

E uma coisa que sempre me chamou muito a atenção é o quanto a Escola de Pais acaba sendo uma grande porta de entrada para a Casa. É ali que muitos começam a se aproximar, a conhecer melhor os trabalhos e, aos poucos, a se envolver. Dali surgem alunos da Escola de Aprendizes do Evangelho, futuros evangelizadores e voluntários que passam a colaborar em tantas outras frentes da Casa.

Foi então que, há pouco tempo, alguns pais manifestaram a vontade de frequentar a EAE (Escola de Aprendizes do Evangelho). A vontade existia, mas existia também um problema, um velho conhecido meu: filhos pequenos e a dificuldade de conciliar as duas coisas.

Naquele momento, foi impossível não voltar no tempo. Me vi chegando para a aula com meu filho, torcendo para que ele ficasse quietinho e não resolvesse fazer uma de suas perguntas, sempre tão pertinentes, mas que, vez ou outra, acabavam deixando os facilitadores numa verdadeira “sinuca de bico”.

Só que, dessa vez, havia uma grande diferença: eu já não era mais aquela mãe tentando encontrar uma solução sozinha.

Éramos uma equipe.

Uma equipe da Evangelização Infantil muito unida, com uma parceria sem igual e, principalmente, disposta a encontrar uma solução. Foi então que surgiu a ideia: por que não assumirmos uma turma de EAE preparada para acolher também essas famílias e tornar possível a participação desses pais?

 

 

Éramos oito voluntários, todos evangelizadores e médiuns. Entre nós, seis também eram dirigentes de EAE e facilitadores. Mas… mais importante do que toda essa experiência dentro da Casa, era o fato de conhecermos de perto a realidade daquelas famílias. Entendíamos suas dificuldades e sabíamos o quanto um pouco de apoio poderia fazer a diferença para que aqueles pais também tivessem a oportunidade de fazer a Escola.

Levamos, então, nossa proposta para a Diretoria da Casa: uma turma de EAE que também pudesse acolher a realidade dessas famílias. Os pais participariam das aulas com tranquilidade, sabendo que seus filhos estariam ali por perto, seguros, acolhidos e bem cuidados.

E foi impossível não pensar naquela salinha que eu havia imaginado tantos anos antes, quando era eu quem chegava à Escola com um filho pequeno e precisava encontrar uma maneira de conciliar as duas coisas.

A diferença é que, agora, aquela ideia já não era apenas o desejo de uma mãe.

Tinha se tornado o desejo de uma equipe e a possibilidade de fazer a diferença na caminhada de outras famílias.

A Diretoria recebeu nossa proposta com bastante cautela e manifestou uma preocupação muito pertinente: aquele dia não poderia se transformar em mais um dia de Evangelização Infantil da Casa. Afinal, não era essa a intenção.

Essa preocupação também era nossa e, desde o início, tínhamos muita clareza sobre isso. Como evangelizadores e trabalhadores da Casa, conhecíamos profundamente a proposta da Evangelização Infantil e sabíamos exatamente o que poderia, e o que não poderia fazer parte daquele encontro. Por isso, antes mesmo de apresentarmos o projeto, já havíamos pensado, discutido e estruturado cuidadosamente cada detalhe, justamente para que não houvesse dúvida: a Equipe de Apoio à Família teria uma proposta própria, muito bem definida e totalmente distinta da Evangelização Infantil.

Nossa proposta nunca foi criar mais um dia de Evangelização Infantil, mas oferecer às crianças um espaço seguro e acolhedor enquanto seus pais participavam da Escola.

E fizemos questão de deixar isso muito claro desde o início. Conversamos com cada pai e cada mãe inscritos na turma, explicando o verdadeiro papel da Equipe de Apoio à Família: estar ali para proteger, acolher e cuidar de seus filhos durante aquele período, permitindo que eles se entregassem às aulas por inteiro, com a certeza de que suas crianças estavam bem cuidadas e bem pertinho.

E essa diferença está presente em cada detalhe.

No “Dia do Curso”, não há programa ou roteiro de aula, não utilizamos o material de apoio da Evangelização Infantil e não acontece a Assistência Espiritual Infantil. A proposta é outra: deixar que as crianças aproveitem aquele tempo com liberdade, segurança e alegria.

 

 

A mesa do lanchinho fica à disposição para que elas possam se servir quando quiserem. Brinquedos, jogos, papéis e canetinhas estão sempre por perto. Elas brincam, desenham, conversam, inventam brincadeiras, fazem penteados e se divertem juntas.

Tudo acontece de maneira leve e espontânea. Não há uma atividade dirigida, mas há algo que está naturalmente presente: os valores que fazem parte daquele ambiente e das pessoas que estão ali. O respeito, o carinho, a amizade, o cuidado com o outro e, principalmente, o acolhimento… tudo isso não precisa estar em um roteiro para fazer parte daquele encontro.

E talvez a melhor prova de que essa diferença ficou clara seja a forma como as próprias crianças enxergam esses dois momentos.

Para elas, existe o “Dia do Curso”, como carinhosamente chamam o dia da Escola dos pais, e existe o “Dia da Evan”. E elas sabem muito bem que cada um tem a sua proposta.

No “Dia da Evan”, fazem a prece, ouvem histórias, participam das atividades, cantam canções que falam de Jesus e aprendem, de uma forma própria para cada idade, valores e ensinamentos que aos poucos vão levando para a vida.

Já no “Dia do Curso”, a proposta é outra. É dia de brincar, desenhar, conversar, inventar, dar risada e aproveitar aquele tempo juntas, enquanto os pais estão em aula.

E, enquanto eles cuidam da própria caminhada, nós temos o privilégio de cuidar, por algumas horas, daquilo que eles têm de mais precioso: seus filhos.

O projeto está dando muito certo, e isso nos deixa imensamente felizes. Ver os pais tranquilos e envolvidos com a Escola, enquanto seus filhos estão seguros, acolhidos e felizes ali pertinho, nos mostra que valeu a pena acreditar naquela ideia.

Mas tem uma coisa da qual as nossas crianças não abrem mão.

No final de cada encontro, elas cantam “Vibrações de Amor”. E é bonito demais vê-las envolvendo o planeta Terra e todos os necessitados em: ♪ ♫ Vibrações de amor, muita luz e cor. ♪ ♫

Talvez seja esse o momento que melhor traduza tudo o que estamos vivendo.

São encontros diferentes, com propósitos diferentes.

Mas a presença do Cristo está nos dois.

Está na palavra que ensina e no cuidado que acolhe. Está na prece e na brincadeira. Está naquele que aprende, naquele que ensina e naquele que, por algumas horas, se dispõe simplesmente a cuidar do filho de alguém para que esse alguém possa estar ali.

Naquela época, eu não poderia imaginar que, tantos anos depois, ajudaria a construir esse cantinho para os filhos de outros pais.

 

 

Hoje, olhando para tudo o que vivemos, penso naquela criança curiosa que, vez ou outra, quebrava nosso combinado e fazia suas perguntas aos facilitadores. Durante muito tempo, achei que meu filho estava no lugar errado, na hora errada.

Talvez ele nunca tenha estado.

Talvez, naquela época, ainda faltasse um espaço onde ele pudesse estar do seu jeito, enquanto eu também pudesse estar onde precisava.

Vinte e cinco anos depois, aquele cantinho que um dia imaginei para o meu filho existe para acolher os filhos de outras famílias.

E isso, para mim, torna tudo ainda mais especial.

O lugar certo sempre foi a Casa.

Nós só precisávamos encontrar uma forma de acolher a todos.

E agora encontramos.

 

Renata Mascotte Sanches

CEAE Formosa

Regional São Paulo Leste

 

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