Pai, além dos laços
Pai, além dos laços
“Os laços do sangue não criam forçosamente os liames entre os Espíritos. O corpo procede do corpo, mas o Espírito não procede do Espírito, porquanto o Espírito já existia antes da formação do corpo” ¹.
Simplificando, o Espírito traz sua própria história e individualidade. Os pais formam o corpo, mas os laços de sangue não determinam que os Espíritos tenham afinidade ou vínculos espirituais anteriores.
Queridos leitores, hoje convido vocês a uma reflexão sobre o Dia dos Pais. Algumas pessoas consideram a data puramente comercial, se esquecem da parte emocional. Para outras é puramente sentimental, um dia sofrido, dolorido, por não ter mais ao seu lado a presença paterna.
Se olharmos somente por este lado material, a data se torna uma obrigação social, um compromisso no calendário. Se nos deixarmos levar pelo sofrimento, sem esperança, querendo abolir a data, estaremos apenas nos enganando, tentando ignorar a tristeza e o luto que precisa ser vivido. Porém, somente “o senhor Tempo” irá amenizar a saudade e o sofrimento.
A comemoração foi introduzida no Brasil em 1953, pelo publicitário Sylvio Bhering, visando estimular o comércio. Apesar disso, muitos daqueles que já partiram somente nesta data comercial é que recebem carinhosas vibrações ou uma oração.
Contudo, por trás da criação desta data, existe uma linda história verídica de um amor filial.
Em 1909, em Washington, Sonora Louise Smart Dodd teve a ideia de homenagear seu pai, William Jackson Smart, um agricultor e veterano de guerra norte-americano que, com a morte da esposa, criou seis filhos, incluindo um recém-nascido.2
O verdadeiro sentido deste dia depende do significado que cada coração, em seu íntimo, escolhe dar.
Atualmente, no ambiente escolar, o Dia dos Pais tem sido substituído pelo Dia da Família, com argumentos esclarecedores e válidos, quando se pensa em inclusão, afetividade, acolhimento, diversidade em relação à criação e à pluralidade da estruturação familiar. Isto nos mostra o cuidadoso olhar das unidades escolares em garantir um ambiente seguro, onde famílias, crianças e jovens se sintam valorizados e pertencentes.
Mas e quanto às Instituições Espíritas Religiosas, seria válido comemorar o Dia dos Pais? Este ainda é um tema que nos convida ao diálogo e à reflexão.
É neste ponto que peço a sua atenção. Leiam este texto, a princípio sem julgamentos, mas com a mente e o coração aberto. Que tenham olhos de ver, neste momento.
Diferente das instituições escolares, nas casas espíritas, partindo dos conceitos doutrinários como reencarnação, imortalidade da alma, lei de causa e efeito, livre arbítrio e outros, um dos objetivos da evangelização é tornar o indivíduo consciente de que é um ser espiritual imortal, em constante aprendizado neste mundo material.
Sabemos que para um espírito reencarnar não é fácil. Além da questão da espera até o momento certo, há todo um planejamento da espiritualidade para que ele possa renascer exatamente no local, na família em que precisa estar e nas circunstâncias adequadas para o seu desenvolvimento.
O espírito, ao reencarnar, traz consigo sua bagagem espiritual, tendências, necessidade de resgates, reajustes, reparação, aprendizado e tem oportunidade de desenvolver novas virtudes, superar imperfeições, além de ressignificar sua própria história.
A Doutrina Espírita oferece as ferramentas necessárias para que essa transformação interna aconteça e para ressignificar as dificuldades e amarguras existentes no relacionamento familiar. Pais e filhos não se reencontram por acaso, os filhos também podem ser instrumentos de aprendizado.
Portanto, não é por acaso que Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, dedica várias questões à família, à responsabilidade dos pais e aos deveres dos filhos. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, encontramos textos esclarecendo sobre a família, parentesco espiritual, material, a ingratidão dos filhos e suas obrigações.
O tema Paternidade pode e deve ser desenvolvido à luz da Doutrina desde os primeiros ciclos da Evangelização Infantil e até mesmo na escola de Pais.
Caso exista, na turma, criança com pais ausentes, omissos ou já desencarnados, cabe ao evangelizador ter sensibilidade, planejar atividades acolhedoras e inclusivas, respeitando a diversidade na formação familiar, evitando situações que possam gerar tristeza e desconforto a seus alunos.
Se o trabalho de conscientização se iniciar desde os primeiros ciclos da Evangelização, diminui significativamente a probabilidade desta criança crescer cultivando sentimentos de raiva ou mágoa contra seu pai. Isso ocorrerá porque este espírito foi esclarecido, com a luz do Evangelho, a compreender que seu pai lhe deu o bem mais precioso neste mundo: a vida.
Mesmo nos casos em que a figura paterna terrena se faz ausente, a reflexão sobre essa data pode ser ressignificada. Eis o caminho para aprender a desenvolver a gratidão, ao reconhecer a dádiva que é a vida e compreender que os pais não são perfeitos, que erros são formas de aprendizados, nas tentativas de acertos.
Aqueles que, por alguma razão, no uso de seu livre arbítrio, desistirem ou deixarem de cumprir seus compromissos assumidos na espiritualidade, responderão pelas consequências de suas escolhas, segundo a Lei de Causa e Efeito, até que haja uma oportunidade de reparação em sua caminhada evolutiva.
Que a leitura deste texto possa instigar a mente e o coração de cada leitor, abrindo um leque de ideias e possibilidades para desenvolver, com suas crianças ou jovens, o tema Paternidade sob um novo olhar.
Que o Dia dos Pais faça parte do calendário de cada Casa Espírita. Sejamos gratos a Deus por sua misericórdia e benção, pelo esquecimento das vidas passadas, para que haja um novo recomeço.
Silvia Maria dos Santos Amâncio Ribeiro
Centro Espírita Luz do Caminho – CELUCA
Regional Vale do Paraíba
Referências:
¹ Allan Kardec – Evangelho Segundo Espiritismo – cap. XIV – item 8
² https://brasilescola.uol.com.br/datas-comemorativas/dia-dos-pais.htm



